Ciência de bolos – Emulsificante

De bolos vocês devem ter visto que temos qualquer coisa, mas e de doutora?

Conforme contei um pouco da minha experiência aqui, o mestrado na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos me ajuda bastante na cozinha. Tanto na escolha de receitas que vou testar, como na avaliação da qualidade do que produzo.

Senti necessidade de escrever um pouco sobre isso pois a qualidade das coisas que faço é um dos diferenciais que tenho. Mas de nada adianta ser diferente se as pessoas não entenderem ou perceberem essa diferença, não é mesmo?

Vou tentar ser o mais simples possível, mas deixarei as referências bibliográficas caso alguém queira se aprofundar no assunto!

Então meus amigos, vamos estudar um pouquinho? 🙂

O que é um bolo afinal?

Tudo começa com uma emulsão: A massa de bolo é basicamente uma emulsão de gordura em água, (uma mistura bem complexa) composta por bolhas e um mix de ovo-açúcar-água-gordura na qual são dispersas partículas de farinha de trigo. Quando assamos o bolo, o aumento de temperatura, pressão de vapor de água e taxa de formação de dióxido de carbono resultam na expansão da massa. Aumento adicional de temperatura causa gelatinização do amido e coagulação de proteínas, ou seja, forma-se a estrutura do bolo!

E o que é uma emulsão?

Falando de maneira bem simples: emulsão é a mistura heterogênea de um líquido que não se mistura com o outro, mas que quando emulsionados, ficam bem misturadinhos, dando a impressão que são uma coisa só, mas na verdade não são!

O exemplo mais simples: água e óleo. Se colocarmos num mesmo copo, eles não se misturam, mas se processarmos de uma maneira específica (um processo físico como o batimento mais a adição de um agente emulsificante), os dois podem parecer que estão misturados. Mas não estão, eles apenas formaram uma emulsão. Vejam só alguns exemplos de alimentos processados que são emulsões: creme de leite, manteiga, margarina, maionese (quem nunca perdeu a maionese caseira no liquidificador por acrescentar óleo a mais? Quebra da emulsão!), salsicha, sorvetes, bolos, chocolates, sendo que o leite e a gema de ovo são considerados emulsões naturais.   

E uma das maneiras de se avaliar a qualidade da emulsão formada é pela sua estabilidade. 

Vocês já estão percebendo onde quero chegar?

Se a massa de bolo é uma emulsão, e a qualidade da emulsão é avaliada pela sua estabilidade, por aqui já temos uma noção de porque alguns bolos crescem lindamente e depois murcham, e porque outros crescem e assim se mantém. Tudo por causa da qualidade da emulsão!

Um bolo é produzido normalmente com altos teores de carboidratos ( açúcar e farinhas com altos teores de amido), bem como de gorduras saturadas (manteiga, margarina, gordura vegetal hidrogenada), e a “cola” que mantém tudo isso misturadinho são os agentes emulsificantes, como os ovos ou aditivos.

Ou aditivos.

E agora vem o meu questionamento. Se uma massa (emulsão) pode ser feita com o uso de ovos, ou outro produto naturalmente existente que contenha proteína (pois é ela que faz esse papel de agente emulsionante), por que então usar um aditivo sinteticamente produzido?

A resposta? O preço!

Para vocês terem uma noção: um pote de emulsificante de 100g (que dá para fazer centenas de bolos), custa R$3,39. Com esse valor, não dá nem para comprar uma dúzia de ovos aqui em Curitiba!

É claro que não é somente isso, tecnicamente falando, existem inúmeras outras vantagens como: padronização do produto, estrutura de miolo homogênea, maior tempo de vida de prateleira, maior incorporação de ar na massa (você então compra ar a preço de bolo $$), superfície lisa e homogênea.

Masss… Para mim sempre tem o mas. O que você preferiria comer? Estearoil-2 lactil lactato de cálcio, ou ovos?
Comer alguma coisa que não tem efeitos adversos conhecidos (ainda), ou algo produzido pela natureza, ou seja, natural gente!

Pagar mais barato e comer ar a preço de bolo ou pagar um pouco mais e saber o que você está comendo, a maneira que foi feita, com uma maior qualidade nutricional?

Ao meu ver, os emulsificantes nas massas de bolos nem são o maior problema. Para mim o pior são as coberturas! Mas isso fica para um próximo post!

Qualquer dúvida, podem me escrever ou comentar 😉

Referências:

BOLO CONTENDO FUBÁ, ÓLEO E PASTA DE GERGELIM E AMIDO
RESISTENTE: CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS E TECHNOLÓGICAS1

Souza et al. Bolo contendo fubá, óleo e pasta de gergelim e amido resistente: características sensoriais e technológicas. Revista Agrotecnologia, Anápolis, GO, PrP/UEG  v. 3, n. 2, p. 108 – 124, 2012 DOI: 10.12971/2179-5959.v03n02a09

Santos, L. V. Emulsificantes – modo de ação e utilização nos alimentos. Trabalho acadêmico disponível em: http://quimicadealimentos.files.wordpress.com/2009/08/emulsificantes-e28093-modo-de-acao-e-utilizacao-nos-alimentos.pdf

Gutkoski, Luiz Carlos, Teixeira, Débora Marli de Freitas, Durigon, Angelise, Ganzer, Ana Gabriela, Bertolin, Telma Elita, & Colla, Luciane Maria. (2009). Influência dos teores de aveia e de gordura nas características tecnológicas e funcionais de bolos. Food Science and Technology (Campinas)29(2), 254-261. Retrieved March 05, 2014, from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-20612009000200003&lng=en&tlng=pt. 10.1590/S0101-20612009000200003.

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4 thoughts on “Ciência de bolos – Emulsificante

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